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O arriscado universo sem fio
Especialista em segurança conta a revista Época por que o Brasil é um alvo potencial para ataques de hackers a celulares, laptops e PDAs - e ensina a se defender.
ÉPOCA - Quais são as ameaças concretas para os usuários de celular com bluetooth?
Russ Rogers - Roubo de dados e vírus. Existe uma brincadeira perigosa de conteúdo sexual que virou moda na Europa e deve desembarcar no Brasil em breve. Chama-se toothing e consiste na troca de mensagens rápidas, tipo torpedo, entre usuários que não se conhecem, mas estão próximos. Normalmente acontece entre passageiros de trem, ônibus e metrô, no caminho para o trabalho. As pessoas usam seus celulares para recrutar parceiros e marcar encontros em algum ponto da cidade. O problema é que a brincadeira serve como porta de entrada para invasores. Basta que a função bluetooth esteja ativada nos dois aparelhos. O que mais chama a atenção é ä que o Brasil tem uma das maiores redes de celular do mundo - são 67,1 milhões. E esse número ainda cresce. As proteções, no entanto, caminham num ritmo bem mais lento que a escalada dos aparelhos. Países em desenvolvimento como o Brasil, onde a tecnologia chega antes da cultura digital, são alvos potenciais.
ÉPOCA - E quem não entra no toothing?
Rogers - O roubo de dados também pode acontecer de forma mais casual. Uma pessoa que esteja caminhando por São Paulo, por exemplo, em meio a arranha-céus, portando um celular com bluetooth com a função ativada pode ser interceptada por um invasor sem perceber. Os edifícios espelhados podem replicar o sinal de rádio para locais longínquos. Eu já captei sinais de terceiros sem querer. Se eu fosse mal-intencionado, teria copiado a agenda telefônica da vítima e usado da pior forma possível.
ÉPOCA - E a senha? Não funciona?
Rogers - Um dos mitos é que basta uma senha para ter seu telefone protegido. Mentira. Há ferramentas gratuitas disponíveis na internet para quebrar códigos sigilosos em pouco tempo. Acredita-se ainda que os hackers invadem as redes domésticas sem fio apenas para pegar carona na conexão. Isso é falso e ingênuo. Os hackers usam, sim, sua infra-estrutura para ataques externos. Mas se ele invadiu sua rede, mesmo sendo você um mísero usuário doméstico, é claro que vai tirar proveito de seus dados.
ÉPOCA - Para quê?
Rogers - Já pensou ter de provar que não cometeu um crime ou que seus dados foram roubados sabe-se lá como? Sua identidade tem muito valor, penso eu. Se puder me apoderar de informações sigilosas sobre você, posso me tornar você virtualmente, acessar sua conta, fazer compras, subornar, conhecer seus amigos. Quem não se protege não tem espaço no novo estilo de vida virtual.
ÉPOCA - Qual o pior vírus para celular?
Rogers - Chama-se Cabir e começou a se espalhar em 2004. A boa notícia é que nenhuma das pragas identificadas até agora conseguiu causar grandes estragos. O máximo foi travar o sistema operacional e esvaziar a bateria dos aparelhos infectados. Mas ainda é cedo. Podemos esperar uma explosão de pragas e spams para celulares com a mesma força que acontece na caixa de e-mail.
ÉPOCA - Que medidas práticas o usuário deve tomar para se proteger?
Rogers - Lição número um: mantenha a função bluetooth habilitada apenas se você a utiliza. Senão, é convidar os hackers a invadir seu celular. E, se puder, faça como eu, não abra arquivos de e-mail do celular. Espere até chegar em casa ou ao escritório. Muitos aparelhos têm uma espécie de proteção antivírus. Leia o manual do aparelho e ative. Se você instalou uma rede wi-fi em casa, cheque se todas as portas descritas no manual estão fechadas. E faça uma revisão ao menos uma vez por semana. Parece simples, mas estima-se que só 15% dos usuários fazem isso. Eles são a ponta mais frágil quando se fala de segurança. De que adianta equipar os celulares com filtros se as pessoas não sabem usá-los?
ÉPOCA - Então todos estão em perigo?
Rogers - Se você cumprir à risca o que manda o fabricante, a chance de ser infectado é quase zero. Mas é possível destruir companhias e reputações caso as informações não estejam bem seguras.