| O típico sobrado eclético é um dos muitos que foram projetados e construídos no bairro do Bexiga, zona central de São Paulo, por imigrantes italianos que copiavam os detalhes e ornamentos das casas mais ricas da cidade. Restaurado pela arquiteta Míriam Escobar, o casarão teve sua área complementada por uma nova construção de tipologia fabril e agora abriga a MCR Produções e Propaganda e seus estúdios de gravação.
Há cerca de 15 anos, quando foi realizada a intervenção na primeira sede da MCR, no bairro da Bela Vista (conhecido como Bexiga), seus proprietários já cobiçavam o casarão vizinho, típico exemplar da arquitetura eclética do início do século 20, como centenas de outros que os mestres-de-obras de origem italiana espalharam pela região.
Em 1990, os donos da empresa finalmente conseguiram adquirir o sobrado de porão alto, datado de 1910.
Responsável pelas obras da primeira casa (Projeto 100, junho de 1987), a arquiteta Míriam Escobar foi chamada para fazer o mesmo trabalho no segundo imóvel, a fim de dar unidade de linguagem ao conjunto. As obras foram divididas em quatro etapas, iniciadas em 1993 e concluídas em 2000.
A primeira fase abrangeu a derrubada do muro que delimitava os dois lotes e a implantação, nos fundos, de um galpão que repete a tipologia fabril da obra de 1986. “A linguagem é bastante semelhante à das fábricas do início do século passado, mesma época da construção das duas casas”, diz a autora.
Feito especialmente para abrigar o principal estúdio de gravação sonora da MCR, o edifício é formado por paredes duplas de alvenaria de blocos, revestidas por tijolos aparentes, estruturalmente independentes em todo o perímetro.
O invólucro externo, que funciona como dissipador dos ruídos urbanos, também apóia a cobertura em duas águas - uma delas acompanha quase toda a largura do bloco construído, até ser interrompida pelo shed de manutenção do ar-condicionado.
Tanto a sala técnica como o estúdio receberam tratamento acústico com material alveolar.
A segunda fase resumiu-se à criação do pátio, tratado paisagisticamente, que interliga as construções e serve como espaço de convivência para os funcionários.
O restauro do casarão corresponde à terceira etapa do projeto. A fachada de 9 m de altura, com frisos, cornijas e outros ornamentos originais bastante danificados, foi recuperada. A varanda lateral, marcada pelo ritmo dos vãos de portas e janelas, recebeu cobertura estruturada por perfis metálicos e fechamento com vidro. O projeto manteve a modulação original dos ambientes que deveriam abrigar o novo programa, exceto na área central, onde foi aberto um pé-direito duplo com iluminação zenital, unindo a sala a um dos dormitórios e criando uma caixa de circulação vertical livre do sombreamento provocado pelo edifício vizinho.
O trabalho incluiu a reforma geral da construção e das instalações, com a substituição do piso de madeira apoiado em vigas-barrotes pela laje de concreto sustentada por vigas e pilares metálicos.
Na parte posterior da casa foi preservada a abobadilha composta por trilhos de bonde e tijolos maciços que sustenta o piso do último compartimento. Na etapa final foi implantado o projeto paisagístico no recuo lateral, equipado com fonte e churrasqueira para servir como área de convivência.
Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 261 Novembro 2001
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